O Substack não é um feed
Uma reflexão sobre textos, notas e a diferença entre postar e construir uma publicação
Há alguns dias, tive uma conversa muito especial sobre o uso do Notes com a Gaía @ Substack da publicação Radar Substack/BR.
Se você não estava presente ou ainda não assistiu à gravação, te convido a, logo mais, quando a correria perder a pressa e a calma sentar à mesa, se deliciar nessa prosa. Te adianto que foi um encontro super potente, daqueles em que a conversa vai ganhando um rumo próprio à medida que as perguntas vão sendo feitas, chegando em lugares que roteiro nenhum seria capaz de antecipar.
Mas como era nossa live de estreia, e não sabíamos quem — ou se alguém — apareceria, a Gaía sentiu de me enviar algumas perguntas para termos como apoio, caso nosso encontro fosse ao som de grilos.
No fim, não usamos nenhuma delas.
Uma dessas perguntas, no entanto, esteve comigo antes, durante e depois da live. Ao tentar respondê-la, percebi duas coisas: primeiro, que eu nunca havia parado para pensar sobre isso. Segundo, que algo bastante natural no meu jeito de estar no Substack pode ser, para muitas pessoas, uma dessas questões cabeludas.
É essa bela pergunta da Gaía que eu trago para a décima quinta flecha do ateliê.
Boa leitura!
Como você decide o que vira uma nota no Notes e o que pede uma edição da newsletter? Existe uma linha editorial para essa escolha?
Desde o momento em que comecei a publicar minha escrita no Substack, em novembro de 2022, me vejo construindo um acervo.
Acredito que essa seja a maior das diferenças entre a maneira como eu vivo essa plataforma e a lógica com a qual aprendemos a nos relacionar com as redes sociais. Um feed está sempre nos levando para o próximo post e descartando os anteriores. Conteúdo tem prazo de validade e caduca na velocidade da luz. Um acervo funciona de outra forma: ele vai reunindo textos atemporais que continuam conversando entre si, permitindo que aquilo que foi escrito lá atrás volte a ser encontrado, compartilhado e lido a partir de novos contextos.
É por isso que a maior parte da minha energia criativa está, sempre esteve e permanecerá sendo colocada na confecção das edições tanto do Manuscrita ateliê, quanto da Vagarosa e da Comadreria.
Eu estou sempre em busca — ou aberta para ser encontrada — pela próxima ideia que vai virar um texto. Fico matutando possibilidades e caminhos a serem explorados, pensando títulos, subtítulos, alquimizando parágrafos de abertura para que eles encantem o leitor sem entregar o ouro, testando palavras, brincando com sonoridades, procurando sinônimos, outros jeitos de dizer a mesma coisa, eliminando aquilo que não é essencial.
Fico completamente imersa na feitura de uma escrita que perdura a passagem do tempo e não desaparece na efemeridade de um feed.
São esses textos que, ao entrarem para o acervo, podem ser reencontrados por alguém que chega amanhã, daqui a um ano ou daqui a cinco. Podem ser compartilhados novamente e citados em textos futuros, criando as linhas de continuidade que o algoritmo do Substack foi feito para reconhecer e impulsionar — tal qual vimos na flecha 7 do ateliê.
As notas entram nessa história de outro jeito.
Ao contrário dos textos, eu quase nunca sento para escrevê-las. Elas aparecem inteiras, com começo, meio e fim, enquanto estou cuidando da casa, amamentando, dirigindo, conversando ou empurrando o carrinho com a cria rumo ao supermercado.
São pequenos pensamentos, observações, questionamentos e historietas que surgem prontos no enquanto do caminho e encontram no Notes um lugar para existir.
Às vezes penso que eu nem crio notas.
Eu vivo as três publicações que capitaneio, e as notas aparecem para mim.
Não porque sejam fruto do acaso, mas porque, quando nos embrenhamos nos meandros da publicação para entender a que ela veio, passamos a reconhecer facilmente quando uma pequena observação, um fragmento do cotidiano ou uma percepção inusitada tem sentido ser compartilhada.
O que faz com que as minhas notas cumpram tão bem o papel de apresentar o meu trabalho a novos leitores e converter assinantes que se reconhecem no universo das minhas publicações não é uma fórmula replicável, muito menos um eventual viral. É a clareza que tenho do fio mestre de cada uma das minhas publicações.
Essa clareza, e a familiaridade que ela produz, criam uma intimidade muito grande com aquilo que está sendo construído dentro do universo de cada uma delas; com as perguntas que buscam responder, com os assuntos que se alinhavam entre si e com a conversa que desejo ter com quem chega até elas.
Essa mesma intimidade também me permite enxergar os caminhos que conectam uma ideia à outra. Quando conhecemos profundamente aquilo que estamos construindo, começamos a perceber quais textos conversam entre si, quais reflexões podem ser retomadas e quais passagens podem ser abertas para que o leitor continue caminhando pelos corredores desse acervo.
Inclusive, é parte do nosso trabalho como escritoras e escritores no Substack não só criar, mas sinalizar essas possibilidades de navegação, conduzindo o leitor por descobertas que dificilmente aconteceriam por acaso.
Eu não tenho absolutamente nenhum apego às notas que compartilho.
Gosto justamente da natureza passageira delas.
O Notes é, sim, um espaço de fluxo. Ele tem essa característica de um feed: aquilo que publicamos ali circula durante um período de tempo, encontra quem tiver que encontrar, desperta — ou não — conversas e, depois de alguns dias ou semanas, deixa de circular.
A efemeridade das notas não diminui a importância delas. Pelo contrário, é justamente ela que permite que esses pequenos fragmentos cumpram uma função diferente dentro da publicação. Elas acompanham o presente, aproximam leitores, registram pensamentos ainda frescos, revelam perspectivas, partes da nossa personalidade e mantêm viva a conversa ao redor do acervo.
Então, a resposta mais honesta que posso dar à pergunta da Gaía é:
Quando existe clareza sobre a publicação que estamos construindo, deixamos de pensar em notas, textos, comentários, restacks, lives ou conversas no chat como peças soltas e passamos a enxergar a arquitetura que sustenta tudo aquilo que está sendo criado.
Sempre que bater a dúvida sobre o que vira uma nota e o que vale cozinhar em fogo brando até se transformar em uma edição, lembre:
O texto desenvolve uma ideia. A nota apresenta a autora, sua voz e seus pensamentos.
Vale só um último filtro:
Alguém que encontrasse apenas essa nota conseguiria ter um gostinho da autora por trás da publicação?
Ela representa a sua voz? Revela as perguntas que você costuma investigar? Desperta curiosidade pelos seus textos? Faz alguém querer entrar no seu cafofo e permanecer ali por um tempo?
Se sim, manda brasa!
E não se esqueça: uma publicação no Substack não é uma coleção de conteúdos com data de vencimento, “postados” e enviados por e-mail.
É o registro vivo de uma autora em devir.
Com um afeto radical,
Imagem via Pinterest








Como sempre, muito certeira essa flecha. Sinto que enxergo as notas dessa mesma forma que você descreveu, mas acho que no início da minha publicação não enxergava meus textos como um acervo. Nesse movimento de namorar a volta à uma constância de publicação, acho que vale reler meu acervo e entender o fio condutor. Obrigada, amiga querida! ❤️
Adorei essa forma de pensar a conexão do todo e refletir sobre a decisão de qual caminho escolher. Obrigada.